“Hipodermóclise: A redescoberta de uma técnica para um cuidar diferenciado”

Enfª Fernanda Feitosa da Silva

Há quatro anos atrás qualquer questionamento sobre terapia subcutânea nos levaria a pensar diretamente em administração no tecido celular subcutâneo de determinadas substâncias como insulina, vacinas ou anticoagulantes. O termo hipodermóclise, pouco utilizado até então, pela pequena aplicação na prática clínica, levaria muitos profissionais a busca de seu significado em produções científicas na área de saúde. Em dicionários de termos médicos e de enfermagem estaria definido como “a injeção de quantidade elevada de soro por via subcutânea”.

A definição de hipodermóclise hoje não mudou e é definida como um método para administração de soroterapia e medicações, como alternativa à punção venosa periférica, porém com indicações restritas.

A primeira descrição de seu uso remonta ao ano de 1913, primeiramente utilizada entre crianças e recém-nascidos (Rochon et al, 1997). Com os relatos de iatrogenias relacionadas à qualidade da punção e das soluções administradas, associadas ao avanço tecnológico desenvolvido nas duas grandes guerras mundiais, a hipodermóclise foi abandonada em meados do século passado. O registro de efeitos adversos graves decorrentes do uso inadequado desta técnica, nomeadamente, em situações de choque hipovolêmico e/ou administração de solutos hipertônicos (como as soluções glicosadas a 50%), foi motivo que bastou à época para o seu sepultamento.

No final da década de 60, com o incremento dos Cuidados Paliativos na Inglaterra, a hipodermóclise também foi reavaliada e reposicionada como uma via de administração medicamentosa segura. No Brasil, a discussão sobre o tema ainda é tímida e carece de estudos e publicações com os relatos de experiências que certamente se faz cotidianamente nos serviços de Cuidados Paliativos. O desconhecimento sobre o assunto por parte dos profissionais médicos e de enfermagem provavelmente está relacionado à falta de discussão sobre o tema também nas respectivas escolas.

Para O´Keeffe et al, (1996) – “A administração de fluidos pela via subcutânea é uma alternativa cada vez mais reconhecida para a administração de soluções parenterais, tradicionalmente administradas por via intravenosa ou intramuscular e sempre em situações não emergenciais. Consiste em uma prática que, em algumas situações clínicas específicas, demonstra ser uma via segura, eficaz e, sobretudo, confortável para o paciente. Molloy (1992) acrescenta que também é uma boa opção para a reposição de eletrólitos e medicações analgésicas quando a aceitação oral está comprometida e a medicação necessita ser administrada.

O tecido subcutâneo é dotado de capilares sanguíneos, tornando-se uma via favorável à administração de fluidos e/ou medicamentos, uma vez que esses serão absorvidos e transportados à macrocirculação. A vascularização do tecido subcutâneo abriga cerca de 6% do débito cardíaco permitindo uma taxa de absorção muito similar à da administração intramuscular dos medicamentos, atingindo concentrações séricas menores, mas com tempo de ação prolongado.

Semelhante a outros métodos parenterais, evita o clearance pré-sistêmico pelo fígado, possibilitando uma concentração sérica estável do medicamento e evitando picos plasmáticos que determinam o possível aparecimento de efeitos colaterais indesejáveis. Se usada a infusão contínua, evita-se também que a concentração plasmática caia a níveis insuficientes para o ressurgimento dos sintomas.

Segundo BURLÁ (2002) a hipodermóclise é uma técnica simples e segura, desde que obedecidas as normas de administração, volume e qualidade dos fluidos e medicamentos a serem infundidos.

Um estudo realizado no Centro Geriátrico Julia Magalhães, na cidade de Salvador no ano de 2010 por JESUS, SILVA e FERREIRA, mostra que “na formação acadêmica dos enfermeiros não há preparo para utilização da hipodermóclise, entretanto os treinamentos e a vivência prática são capazes de desenvolver tal competência superando as dificuldades, uma vez que a realização do procedimento pela enfermagem requer o desenvolvimento do aprimoramento de conhecimentos e habilidades”.

A utilização da via subcutânea representa pois, em doentes com necessidade de cuidados de suporte ou paliativos, a possibilidade de recorrer a uma via parentérica, usufruindo dos benefícios inerentes, sem ter as desvantagens já descritas para as administrações intramusculares e intravenosas, já que não existe risco de hemorragia, embolia ou sépse.

Tal técnica vem sendo utilizada de forma pioneira, por exemplo, pelo INCA (Instituto Nacional de Câncer) que já tem no Brasil publicações especificas sobre o tema na forma de manuais, onde se orienta as indicações, as vantagens e desvantagens e se descreve à técnica, o INCA realiza também curso de capacitação sobre a técnica e o manuseio da hipodermóclise. No Nordeste temos o desenvolvimento dessa técnica de forma pioneira no Centro Geriátrico Julia Magalhães nas Obras Sociais Irmã Dulce.

Este artigo visa contribuir na provocação da comunidade assistencial, à reflexão e discussão de conhecimentos sobre o tema, avançando assim na difusão de uma técnica que pode resolver alguns problemas nos cuidados de pacientes crônicos e paliativos, em termos de hidratação, analgesia e terapia medicamentosa, dentro das limitações da via.

BRASIL. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Terapia subcutânea no câncer avançado. / Instituto Nacional de Câncer. – Rio de Janeiro: INCA, 2009. 32 p.: il. – (Série Cuidados Paliativos)

Bruera E, Legris MA, Kuehn N, et al. Hypodermoclysis for the administration of fluids and narcotics analgesics in patients with advanced cancer. J Pain Symptom Manage 1990; 5 (218):218-20.

BURLÁ, Claudia. Paliação: Cuidados ao fim da vida. FREITAS, Elizabete Viana de et al. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, c2002. 1187p. (Cap.87)

Cuidado Paliativo / Coordenação Institucional de Reinaldo Ayer de Oliveira. São Paulo:Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, 2008. 689 p.

DA POIAN, S. H; CARACENI, A. Administração subcutânea de opióides. Revista Brasileira de Anestesiologia, v. 41, p. 267-71, 1991.

Gonçalves MC, Pimentel F L, Hipodermóclise: uma técnica subutilizada. Arquivos de Medicina 1998; 12 (4):234-37.

LÜLLMANN, H.; MOHR, K. Farmacologia: texto e atlas. 4. ed. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004. p. 46-7.

Molloy W, Cunje A. Hypodermoclysis in the care of older adults: an old solution for new problems? Canadian Family Physicians 1992 sep; 38:2038-43.

O´Keeffe ST, Lavan JN. Subcutaneous fluids in elderly hospital patients with cognitive impairment. Gerontology 1996; 46:36-9.